Além da superação: atleta amputado transforma dor em propósito por meio da fé, do esporte e da gratidão

Atleta amputado Ronan do Espírito Santo conta como transformou uma tragédia em uma vida de propósito, marcada pela fé, pelo esporte e pela gratidão.

Jul 23, 2026 - 16:35
Ago 13, 2026 - 09:55
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Além da superação: atleta amputado transforma dor em propósito por meio da fé, do esporte e da gratidão
“Quando agradecemos, nossa mente muda o foco. Ela deixa de olhar para aquilo que faltou e passa a enxergar o que permaneceu”, Ronan do Espírito Santo.

Além da superação: quando a gratidão transforma a dor em propósito

 

Na coluna Vida Plena – À Luz da Palavra, a entrevista PING-PONG aborda o tema “Além da Superação: Uma Vida de Propósito”. Para falar sobre o assunto, conversamos com Ronan do Espírito Santo, de 51 anos, morador do bairro Boa Vista, em Belo Horizonte. Atendente de telemarketing, atleta amputado e exemplo de perseverança, ele compartilha como transformou uma tragédia em uma trajetória marcada pela fé, pelo esporte e pela gratidão.

1. Como aconteceu o acidente que resultou na amputação da sua perna?

Eu tinha 25 anos e havia tirado minha carteira de motorista há apenas três meses, quando eu e alguns amigos decidimos viajar de moto para Uberlândia, em 1999. Por imprudência, não descansamos, e o cansaço fez com que cochilássemos. Estava na garupa e, pela graça de Deus, acordei antes da colisão, despertei o piloto, mas atingimos a lateral de uma carreta. Minha perna ficou presa na roda e sofreu um ferimento gravíssimo. Fui muito bem atendido no Hospital de Clínicas de Uberlândia, mas, devido à gravidade da lesão, três dias depois foi necessária a amputação da perna esquerda. O piloto sobreviveu e teve apenas um ferimento no pé esquerdo.

2. Como foi enfrentar a notícia de que sua vida mudaria completamente?

Até aquele momento eu levava uma vida normal. Ajudava em casa, jogava futebol e participava de corridas de rua.

No hospital, fiquei nervoso, chateado e triste. Minha preocupação era como minha mãe receberia a notícia do acidente e da amputação.

3. Qual foi o maior desafio após a amputação?

O maior desafio foi aceitar a nova realidade. Cheguei a questionar Deus, perguntando: "Por que eu?".

As limitações físicas acabaram não sendo tão difíceis por causa do meu histórico como atleta. O mais complicado foi reconstruir minha mente e descobrir qual seria o propósito da minha nova vida.

4. Em algum momento você pensou em desistir? O que lhe deu forças para continuar?

Sim. Quando ficava sozinho, principalmente durante a noite, dizia que preferia ter morrido a viver daquela forma.

Minha mãe costumava chamar vizinhos, tentando me fortalecer. Até que um dia ela mesma se sentou ao meu lado na cama e disse: "Esse problema é meu e seu. Não tem como colocar na porta dos outros. Nós vamos sair dessa."

Ela nunca quis que eu fizesse aquela viagem de moto, mas foi a pessoa mais importante no meu recomeço. Agradeço a Deus todos os dias por ela ser minha mãe.

5. Como o esporte transformou sua vida após o acidente?

Minha ligação com o esporte começou antes do acidente. Em 1988, eu praticava futebol de salão e corrida de rua.

Na época, a reabilitação não era tão avançada quanto hoje. Eu fazia exercícios em casa e, no ano seguinte ao acidente, fui à Associação Mineira de Paraplégicos (AMP) para buscar informações sobre a carteira de motorista para dirigir carro. Lá encontrei um grupo jogando futebol com muletas.

Inicialmente, recusei o convite para treinar. Disse que não me imaginava como atleta sem uma perna. Então, um dos atletas me respondeu: "Se você não se exercitar, vai acabar engordando e tudo ficará mais difícil." Ele me convenceu. Desde então, nunca mais parei.

Em 2005, fui campeão mundial de futebol para amputados com a Seleção Brasileira. Também fui duas vezes vice-campeão brasileiro pela Associação Mineira de Desporto para Amputados e uma vez vice-campeão pela AMP.

Depois voltei às corridas de rua utilizando muletas. Minha primeira prova foi a Volta Internacional da Pampulha, com 18 quilômetros. Durante dez anos participei de diversas competições, como o Circuito das Estações, a Corrida do Jornal Super, a Meia Maratona do Zoológico e a Meia Maratona da Linha Verde.

Em 2010, a empresa onde trabalhava me presenteou com uma prótese específica para corrida. Foi a realização de um sonho. Depois de oito meses de treinamento — período em que também pensei em desistir — contei com o apoio do professor e fisioterapeuta Rodrigo Cunha, da fisioterapeuta Kelvia e do professor Toninho.

Com a prótese vieram novas conquistas: participei novamente da Volta Internacional da Pampulha, fui campeão da Corrida da Vale, da Corrida do Galo, da Corrida Ouro Verde, em Lagoa Santa, segundo colocado na Corrida do Bairro São Geraldo, campeão do Circuito Mineiro de Corridas, em 2025, campeão da Corrida Garoto, no Espírito Santo, além de disputar a Meia Maratona do Rio de Janeiro.

6. Qual foi a maior conquista que o esporte trouxe para sua vida?

Muito mais do que medalhas, o esporte me devolveu a sensação de ser útil novamente. Também me proporcionou a oportunidade de agradecer, compartilhar experiências e conhecer muitas pessoas.

7. Que conselho você daria para quem enfrenta perdas ou acredita que a vida perdeu o sentido?

Quando encontro alguém pensando em desistir, costumo dizer: é um direito seu desistir, se quiser. Mas, antes, pense em Deus e em uma pessoa que você ama profundamente. Com certeza, essa pessoa gostaria muito de ver você vencendo.

8. Que mensagem resume sua história de vida?

É preciso ter fé e compreender que a gratidão não apaga a dor, mas ela impede que a dor apague todo o resto.

É isso que nos mantém firmes no propósito e faz valer a pena continuar. Quando agradecemos, nossa mente muda o foco. Ela deixa de olhar para aquilo que faltou e passa a enxergar o que permaneceu. E é com o que ficou que conseguimos reconstruir nossa vida.

 

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