Desafios da missão em uma Casa Lar que acolhe crianças e adolescentes

Na coluna Vida Plena – À Luz da Palavra, a entrevista PING-PONG conversa com Lucas Mendes Silva, missionário e diretor do Projeto Bom Pastor, sobre os desafios, aprendizados e a missão de acolher crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade.

Dez 17, 2025 - 15:49
Dez 17, 2025 - 20:58
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Desafios da missão em uma Casa Lar que acolhe crianças e adolescentes

Na coluna Vida Plena – À Luz da Palavra, a entrevista PING-PONG aborda o tema: “Desafios da missão de uma Casa Lar que acolhe crianças e adolescentes”. Para debater sobre o assunto, conversamos com Lucas Mendes Silva, missionário e diretor do Projeto Bom Pastor, 45 anos, casado com Fernanda Almeida Mendes e pai de Gustavo, Giselle e de muitos filhos acolhidos ao longo de sua trajetória.

Missionário e liderança do Projeto Bom Pastor, Lucas Mendes Silva atua há mais de 25 anos no cuidado integral de pessoas em situação de vulnerabilidade, com foco na proteção de crianças e adolescentes. Autodidata, construiu sua formação na prática cotidiana da missão, na educação, no serviço social e na gestão de projetos socioassistenciais, sempre fundamentado nos valores do Evangelho, da dignidade humana e da transformação social.

 

Quando e como surgiu o Projeto Bom Pastor? O que ele oferecia no início?


O Projeto Bom Pastor surgiu em 1º de maio de 1993, com a missão de promover o desenvolvimento comunitário a partir da pregação do Evangelho e do cuidado com pessoas em maior vulnerabilidade social. Desde o início, a proposta foi atuar de forma integral, atendendo às dimensões espiritual, educacional e social. As primeiras ações foram reforço escolar e iniciativas de segurança alimentar, realizadas de forma simples, na casa dos fundadores, Sansão e Rachel, sempre em resposta às necessidades reais da comunidade.

 

Quando o projeto passou a contar com uma Casa Lar e como ela funciona hoje?

A Casa Lar foi inaugurada em 1999, diante da ausência desse serviço em Sabará, mesmo com altos índices de violações de direitos de crianças e adolescentes. Sua missão é ser um lar provisório, oferecendo cuidado, proteção e afeto. O trabalho prioriza a reintegração familiar; quando isso não é possível, busca-se a família extensa e, em último caso, a adoção, sempre respeitando o melhor interesse da criança e do adolescente.

 

Como a Casa Lar é mantida e quais são os principais desafios?


A manutenção ocorre por meio de recursos do governo federal e municipal, além de doações de parceiros e apoiadores. O maior desafio está na complexidade das histórias acolhidas, marcadas por abandono, violência e sofrimento. A limitação de recursos impacta especialmente o fortalecimento das famílias de origem. Soma-se a isso o aumento das demandas relacionadas à saúde mental, como ideação suicida, automutilação, transtornos mentais e do neurodesenvolvimento, o que exige equipes preparadas e uma rede de apoio estruturada. Outro desafio relevante é a dificuldade crescente na colocação em família substituta.

 

Quantas crianças e adolescentes já passaram pela Casa Lar e o que ocorre aos 18 anos?

Mais de 500 crianças e adolescentes já passaram pela Casa Lar ao longo de sua história. Ao completarem 18 anos, os jovens são desligados do serviço e não contam com uma política pública estruturada que assegure essa transição. Em parceria com o município de Sabará, o Projeto busca oferecer apoio com trabalho, moradia e acompanhamento, embora reconheça que essas ações ainda são insuficientes diante das necessidades reais.

 

Como é vivenciar a saída dos jovens ao completarem 18 anos?


É um momento doloroso. Muitos jovens não estão preparados para a vida adulta, especialmente aqueles que viveram sucessivas violações de direitos. A saída reacende sentimentos de abandono e insegurança. Uma emancipação saudável exige tempo, vínculos, cuidado contínuo e família — elementos ausentes na trajetória de muitos desses jovens.

 

Em algum momento pensou em desistir? O que o sustentou?


Sim. Em mais de duas décadas de missão, houve momentos de profundo esgotamento. O que me sustentou foi a Palavra de Deus - falou claramente ao meu coração: “O seu tempo ainda não acabou.”. Então, com inspiração em Cristo, e por meio do Espírito Santo vivo diariamente.

 

Quais parcerias são essenciais para a continuidade do projeto?


As parcerias fundamentais são a família, a igreja, o poder público, a sociedade civil e as empresas parceiras, que contribuem para a sustentação e fortalecimento do Projeto Bom Pastor.

 

Que mensagem deixa para quem deseja servir e qual legado espera construir?


A orientação é servir com amor, zelo e coragem, entendendo que o chamado começa dentro de casa. Quanto ao legado, meu maior cuidado é com o testemunho vivido no dia a dia.  Desejo que todos que passarem pelo Projeto sigam anunciando, com a própria vida, histórias restauradas, ressignificadas e comprometidas com o cuidado ao próximo, para glorificar nosso Deus-Pai.

Casa Lar, Projeto Bom Pastor, acolhimento institucional, crianças e adolescentes, missão social, proteção social

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