Inteligência Artificial na Igreja: avanço ou risco para a fé?

“A tecnologia deve ser assumida como servo, nunca como senhor”, Tiago Rossi Marques.

Set 15, 2025 - 14:14
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Inteligência Artificial na Igreja: avanço ou risco para a fé?

Na coluna Vida Plena – À Luz da Palavra, a entrevista PING-PONG mergulha em um tema atual e desafiador: O USO DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL (IA) NAS IGREJAS. Para debater sobre o assunto, conversamos Tiago Rossi Marques, 40 anos, casado com Nathana e pai de Luca e Isabella. Tiago é professor de Relações Internacionais na PUC-Minas, professor de Teologia Pública no Seminário Martin Bucer Brasil e pastor presidente da Igreja Batista no Novo Riacho, em Contagem. Com vasta formação acadêmica — incluindo mestrado e doutorado em Relações Internacionais — e sólida experiência ministerial, Tiago traz uma reflexão profunda sobre os desafios, riscos e oportunidades que a IA oferece para a fé cristã e para o papel da igreja no mundo contemporâneo.

 

VOCÊ ACREDITA QUE O USO DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL (IA) NAS IGREJAS É UM AVANÇO OU UM RISCO PARA A FÉ CRISTÃ? QUAIS OS PERIGOS DE DEPENDER DEMAIS DA TECNOLOGIA?

A IA pode ser vista como avanço quando permanece instrumento a serviço do Evangelho e do próximo; é risco quando se torna fim em si mesma e captura nossos afetos. Os perigos, diria, incluem idolatria da eficiência, empobrecimento da vida devocional, terceirização do discernimento e desumanização do cuidado pastoral. Há ainda riscos éticos como vazamento de dados, vieses e riscos espirituais, como confundir informação com sabedoria

. Em resumo, a tecnologia deve ser assumida como servo, nunca como senhor.

 

É POSSÍVEL USAR IA PARA PREPARAR SERMÕES, ESTUDOS BÍBLICOS E DEVOCIONAIS? ISSO É POSITIVO?

Sim, na medida em que ela pode ajudar em pesquisa, organização de fontes, esboços e checagem de coerência. É positivo quando IA serve à primazia da exegese fiel, oração e voz pastoral própria. Afinal, o “manejar bem a Palavra” (2Tm 2.15) não se terceiriza. O uso responsável exige verificar textos bíblicos, contexto, autoria e citações, evitando plágio e erros. A IA acelera tarefas; o pastor discerne, interpreta e aplica ao rebanho concreto.

 

COMO A IGREJA PODE EVITAR QUE A IA SUBSTITUA A SENSIBILIDADE HUMANA E A DIREÇÃO DO ESPÍRITO SANTO?

Um caminho para se pensar isso seria manter as ordens das prioridades: Escritura e oração primeiro; ferramentas depois. Manter uma revisão humana colegiada, decisões pastorais presenciais e avaliação espiritual dos frutos (Gl 5.22–23) seria fundamental para a preservação da sensibilidade e da direção do Espírito. Outro ponto seria a definição de limites. IA não aconselha, não visita, não ora, ela apenas auxilia. “Não extingais o Espírito… examinai tudo, retende o bem” (1Ts 5.19–21) é o norte.

 

QUAIS SÃO OS BENEFÍCIOS PRÁTICOS DA IA PARA A COMUNICAÇÃO E A ORGANIZAÇÃO INTERNA DAS IGREJAS?

Ela apoia agendas, atas, inscrições, lembretes, materiais de classe, tradução e acessibilidade (resumos, leitura simplificada). Além disso, a IA pode automatizar rotinas (lista de visitantes, follow-up, logística de eventos) e liberar tempo para pastoreio, sem falar do alcance multicanal (boletins, redes, e-mails) com linguagem adequada a cada público. Tudo isso sempre com transparência, proteção de dados (LGPD) e supervisão humana.

 

COMO VOCÊ ENXERGA O FUTURO DAS IGREJAS QUE DECIDIREM ABRAÇAR A IA?

Igrejas que a adotarem com sabedoria poderão se beneficiar da tecnologia para buscar servir melhor, comunicar com clareza e cuidar com diligência. Porém, quem trocar presença, sacramentos/ordenanças e comunhão por conteúdo e algoritmo empobrecerá a fé e formará consumidores, não discípulos. O caminho aqui seria a procura pela eficiência nas rotinas, mas sem a perda da proximidade no cuidado. A missão continua encarnada, local e relacional.

 

A BÍBLIA NOS ORIENTA DE ALGUMA FORMA SOBRE O USO DA TECNOLOGIA E DA SABEDORIA HUMANA?

A Bíblia incentiva mordomia responsável (Gn 1.28), valoriza o saber especializado e a capacidade oriunda da dádiva (Bezalel, Êx 31), convida a pedir sabedoria (Tg 1.5) e alerta contra a soberba tecnológica (Babel, Gn 11). Versículos como “Tudo me é lícito, mas não me deixarei dominar” (1Co 6.12) e “fazei tudo para a glória de Deus” (1Co 10.31) oferecem critérios de uso. Ferramentas são boas quando servem ao amor a Deus e ao próximo.

 

QUAL CONSELHO VOCÊ DARIA PARA LÍDERES E MEMBROS QUE DESEJAM USAR IA COM EQUILÍBRIO E DISCERNIMENTO?

Definam princípios antes das ferramentas e escrevam uma política simples de uso. Comecem pequeno, com projetos-piloto, e revisem resultados à luz de frutos espirituais. Sejam transparentes com a igreja, protejam dados e garantam a supervisão humana criteriosa em tudo que for sensível. Usem a IA como servo do Evangelho — nunca como pastor da igreja.

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